| Os manufaturados vêm perdendo espaço nos embarques da região sul do país. Pudera: nunca os asiáticos compraram tanta comida Por Flávio Ilha Os exportadores de bens manufaturados terão de lidar com boas e más notícias em 2013. O movimento de recuperação da economia americana, iniciado no último trimestre de 2012, deve se estender no próximo ano e puxar as exportações brasileiras da categoria, especialmente dos três Estados do sul. Essa é a boa notícia. A nem tão boa é que a conjuntura internacional deve tirar espaço dos manufaturados na pauta de exportações do sul do país. Mais ainda diante da visível retomada dos preços das commodities. A alta esperada das cotações será muito influenciada pelo aumento de produção da China, maior compradora de insumos básicos do Brasil. Outra contrapartida negativa é que os chineses estão vendendo cada vez mais manufaturados na América Latina – e neste compasso o gigante asiático vai conquistando fatias de mercado das indústrias brasileiras, tradicionais fornecedoras do mercado latino-americano. Uma superprodução agrícola brasileira, prevista para esta safra, também deve embaralhar o mercado com o peso da balança pendendo ainda mais para o lado das commodities. O resultado é que a participação de bens industriais no total de exportações brasileiras vem caindo fortemente. Era de 80% no primeiro semestre de 2005 – e chegou a 59% no mesmo período de 2012, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “As exportações de produtos industriais tendem a melhorar em 2013, tendo um parceiro importante como os Estados Unidos, que começaram a absorver mais bens industrializados nos últimos meses do ano passado. Mas o peso maior continuará sendo dos produtos básicos”, diz Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).As estimativas da Funcex para 2013 são de superávit de US$ 21 bilhões na balança comercial brasileira, resultantes de exportações da ordem de US$ 262 bilhões e importações de US$ 241 bilhões. De acordo com a Funcex, a produção industrial terá desempenho mais forte, contribuindo para um crescimento de 3,5% no PIB neste ano. “O perfil exportador focado em commodities não mudará, mas a indústria tende a se recuperar internamente, o que deve contribuir para o aumento das suas exportações”, diz Branco. Apesar de terem perdido para a China o posto de principal parceiro comercial do Brasil, os Estados Unidos ainda são os principais compradores de produtos acabados nacionais. O grande interesse dos americanos é por aviões, peças automotivas, motores e máquinas, descreve Branco. “Recentemente, as exportações para os Estados Unidos de etanol – produto de alto valor agregado – subiram 9% em função da quebra de safra americana, mas isso é pontual e não deve se repetir”, avisa o economista. Branco ressalta, ainda, que o Brasil precisa acelerar sua competitividade industrial para reverter o desinteresse dos mercados internacionais pelos manufaturados. Quase metade das exportações brasileiras se concentra, hoje, em apenas cinco commodities. As vendas de minério de ferro, petróleo bruto, complexo soja, açúcar (bruto e refinado) e carnes responderam, em 2012, por 46,8% dos produtos destinados ao exterior. O percentual cresce ininterruptamente, desde 2006, quando a fatia dos cinco produtos ficou em 28,2% nos oito primeiros meses daquele ano. Em 2011, a parcela das cinco commodities atingiu 43,4%. A demanda asiática, em especial da China, por produtos primários fez disparar os preços e aumentar os volumes das exportações nos últimos anos. Ao mesmo tempo, as vendas de produtos manufaturados perderam fôlego, prejudicadas pelo dólar barato e pela desaceleração da economia global no pós-crise. Enxurrada de commodities Com essa combinação, as commodities dominaram a pauta de exportações, definindo uma tendência que incomoda muitos analistas, tanto pela dependência exagerada dos produtos primários quanto pela concentração excessiva em poucos deles. “Há dez anos, nossa pauta de exportações de bens acabados aos EUA era liderada pela venda de aviões, celulares e automóveis. Em 2012, a inversão foi completa, com o petróleo encabeçando as vendas aos Estados Unidos com 22% do total, seguida por bens siderúrgicos”, detalha Branco. A tarefa de defender um mercado tradicional é dificultada pela falta de políticas objetivas do governo brasileiro para a indústria, além dos constantes desentendimentos entre os próprios países parceiros da América Latina – vide a crise com a Argentina. O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Heitor Müller, ressalta que a perspectiva é melhor em 2013, embora o cenário não mude de forma tão radical. “Vamos dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. O mercado mundial estava ruim para qualquer Estado brasileiro. Acontece que temos uma ligação direta com a Argentina. Quando eles fecharam as fronteiras, sentimos isso mais do que os outros Estados”, alerta. Um estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) mostra que, em 2012, o Brasil teve participação de 1,6% nas exportações mundiais, o melhor índice nas vendas globais desde 1950 – quando a participação foi de 2,3%. Ou seja: a fatia brasileira está crescendo mesmo com a enxurrada de commodities na pauta de exportações. “Mas, em termos de cenário internacional, nós continuamos na mesma posição: 20º, 21º, 22º lugar”, destaca José Augusto de Castro, presidente da AEB. Ele atribuiu o patamar atingido em 2012 ao aumento de preços. “Como o próprio governo diz, as exportações cresceram porque o preço das commodities aumentou. Não foi a quantidade. Ou seja, (não há) nenhum mérito para o Brasil. O país sequer define o preço desses produtos.” A liderança de países exportadores é exercida pela China – que detinha a 28ª posição em 1950. É, disparado, a melhor evolução no ranking mundial. “A China é a locomotiva do mundo. Serve como exemplo para nós”, entende Castro. Ele chama a atenção, também, para um segundo vagão – a Índia, que já passou o Brasil e ocupa, atualmente, a 17ª posição na relação de países exportadores. Segundo Castro, a Índia exporta mais de 90% de produtos manufaturados e apresenta crescimento econômico consistente, a exemplo da China. Quem analisa os números da balança comercial sabe que as exportações dependem, hoje, de um número reduzido de commodities e, especialmente, do mercado chinês. Se, no antigo sistema colonial, o Brasil estava atrelado exclusivamente a Portugal, no século 20 essa dependência no comércio exterior passou a ser em relação aos Estados Unidos e, agora, no século 21, à China. Uma dependência que cresce ainda mais à medida que a Ásia se firma como o último oásis de crescimento acelerado do mundo. Recentemente, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) promoveu rodadas de negócios de empresas brasileiras com compradores da China, Taiwan, Hong Kong e Cingapura focadas na venda de commodities. Os setores contemplados foram os de carne bovina, de frango e suína, cafés especiais, vinho e mel. Ao todo, 45 compradores manifestaram interesse em fechar negócio – proporcionando uma expectativa de US$ 55 milhões em vendas para 2013. O próprio governo, porém, está buscando uma forma de nivelar o peso das commodities e o dos produtos industrializados. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), por exemplo, vem desenvolvendo rodadas de negócios no exterior com empresas de diferentes portes e setores. Todos podem contar com consultoria e estruturas de apoio da agência no exterior. Com uma condição: “A gente não apoia exportações de commodities”, avisa Regina Silveiro, diretora de gestão e planejamento da Apex-Brasil. Segundo ela, a agência esteve diretamente ligada a 16,8% de tudo que o país exportou em 2012. O que indica um avanço de 1,4% em relação ao ano anterior. “Temos, hoje, 15 setores que não são nem mesmo de indústrias, mas de serviços. São empresas da chamada ‘economia criativa’, como produtores independentes de TV, cinema, editoras de livro e até grupos de artes contemporâneas”, descreve Regina. Mas ainda é pouco. Cada vez mais, a produção industrial brasileira dá sinais de estagnação. Ao mesmo tempo, os concorrentes estrangeiros se apropriam de parte do crescimento do consumo no Brasil. Edson Campagnolo, presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), diz que o industrial do seu Estado tem “um olho no gato e outro no rato”. “Ele olha para o mercado externo em busca de redução de custos e de oportunidades com o câmbio. Mas também olha para o mercado interno – até porque não pode esquecer dele”, ilustra Campagnolo. O desafio, agora, é não perder o rato e nem o gato. Fonte: http://www.amanha.com.br/home-internas/4849-o-desafio-de-exportar-valor |
terça-feira, 28 de maio de 2013
O desafio de exportar valor
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Uma superprodução agrícola brasileira, prevista para esta safra, também deve embaralhar o mercado com o peso da balança pendendo ainda mais para o lado das commodities. O resultado é que a participação de bens industriais no total de exportações brasileiras vem caindo fortemente. Era de 80% no primeiro semestre de 2005 – e chegou a 59% no mesmo período de 2012, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “As exportações de produtos industriais tendem a melhorar em 2013, tendo um parceiro importante como os Estados Unidos, que começaram a absorver mais bens industrializados nos últimos meses do ano passado. Mas o peso maior continuará sendo dos produtos básicos”, diz Rodrigo Branco, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).
Nenhum comentário:
Postar um comentário