
Confrontos acirraram crise que teve início em março de 2011
Poucos dias após o confronto
armado entre as forças pró-governo e opositores ter chegado à capital do
país, Damasco, um atentado suicida atingiu nesta quarta-feira o centro
nervoso do regime de Bashar al-Assad, causando a morte de alguns dos
principais nomes de sua cúpula de segurança.
Segundo a imprensa estatal síria, morreram no
ataque o ministro da Defesa do país, general Dawoud Abdelah Rayiha, seu
vice-ministro, general Assef Shawkat (cunhado de Assad), e o general
sírio Hassan Turkmani, chefe do grupo governamental encarregado da
crise, ex-ministro da Defesa e até então assistente do vice-presidente.
Outros membros importantes do
governo sírio também teriam ficado "gravemente" feridos, como o ministro
do Interior, Mohammad Ibrahim al-Shaar, e o o chefe do serviço de
Inteligência, Hisham Ikhtiar.
Analistas já consideram a investida contra o alto escalão do governo como um prenúncio da derrocada do regime.
Veja abaixo um série de perguntas e respostas sobre o conflito na Síria.
Como os protestos começaram?

Protestos na Síria começaram de forma pacífica em março de 2011, na cidade de Deraa
As manifestações contra o governo começaram na
cidade de Deraa, no sul da Síria, em março de 2011, quando um grupo de
pessoas se uniu para pedir a libertação de 14 estudantes de uma escola
local.
Os alunos haviam sido presos e supostamente
torturados por terem escrito no mural do colégio o conhecido slogan dos
levantes revolucionários na Tunísia e no Egito: "As pessoas querem a
queda do regime".
O protesto reivindicava maior liberdade e democracia na Síria, mas não a renúncia do presidente Bashar al-Assad.
A manifestação, pacífica, foi brutalmente
interrompida pelas forças do governo, que abriram fogo contra os
opositores, matando quatro pessoas.
No dia seguinte, em meio ao funeral das vítimas,
o governo sírio fez uma nova investida contra os moradores de Deraa,
causando a morte de mais uma pessoa.
A reação desproporcional do governo acabou por impulsionar o protesto para além das fronteiras de Deera.
Cidades como Baniyas, Homs e Hama, além dos
subúrbios de Damasco, juntaram-se a partir desse episódio aos protestos
contra o regime.
Quantas pessoas já morreram? Qual a extensão dos estragos?
Segundo a ONU, mais de 9 mil pessoas foram mortas por forças de segurança e, pelo menos, outras 14 mil foram presas.
Já o governo estima o número de mortos em cerca
de 4 mil - aproximadamente 2,5 civis e o restante integrantes das forças
de segurança.
O que pedem os manifestantes? O que conseguiram até o momento?
Inicialmente, a principal reivindicação dos
manifestantes era por um sistema político mais democrático e maior
liberdade de expressão em um dos países mais repressivos do mundo árabe.
Contudo, ao passo em que as forças pró-governo
abriram fogo contra protestos originalmente pacíficos, os opositores ao
regime começaram a pedir a renúncia do presidente Bashar al-Assad.
Assad, por outro lado, afirmou que não deixaria o
poder, porém, nas poucas declarações públicas que fez desde o início do
conflito, o presidente sírio anunciou algumas concessões e prometeu
reformas.
Como resultado, o estado de sítio, que durou 48
anos, foi abolido em abril de 2011 e uma nova Constituição, propondo
eleições multipartidárias para além do partido dominante Baath, foi
aprovada mediante um referendo em fevereiro deste ano.
O governo também alega que concedeu anistia a
presos políticos. Na versão oficial, milhares foram libertados, mas
cerca de 37 mil ainda permanecem trancafiados nas penitenciárias do
país, segundo agências humanitárias.
Para ativista de oposição, as promessas de Assad
têm pouco efeito diante da violenta repressão que continua a ser
imposta pelo regime.
Existe uma oposição organizada?

Exilado em Paris, Burhan Ghalioun é um dos principais líderes da oposição síria
As autoridades sírias sempre restringiram a
atuação de partidos políticos de oposição e ativistas. Por essa razão,
analistas avaliam que esses grupos tiveram um papel pouco preponderante
na eclosão do levante popular.
Porém, à medida que as manifestações ganharam
contornos nacionais, os grupos de oposição começaram a declarar seu
apoio às reivindicações dos manifestantes e, em outubro do ano passado,
anunciaram a formação de uma frente unida, o Conselho Nacional Sírio
(CNS), composto, em sua maioria, pela comunidade de muçulmanos sunitas,
há décadas perseguida por Assad.
O CNS é liderado pelo dissidente sírio Burhan Ghalioun, atualmente radicado em Paris, e pela Irmandade Muçulmana.
A principal frente de oposição síria, no
entanto, não conta com o apoio dos cristãos e dos alauítas (minoria
muçulmana à qual pertence Assad), que, juntos, correspondem a 10% da
população síria e até agora têm se mantido leais ao governo.
A primazia do CNS, todavia, tem sido desafiada
pelo Comitê de Coordenação Nacional (CCN), um bloco de oposição liderado
por antigos dissidentes do regime, alguns dos quais são avessos à
presença de islamitas no CNS.
A desunião frustou a comunidade internacional.
Em meados de março deste ano, os grupos de oposição concordaram em
colocar suas diferenças de lado e se comprometeram a atribuir ao CNS o
papel "de interlocutor e representante formal da população síria".
Ainda assim, a frente de oposição tem tido
dificuldade de angariar o apoio do Exército Livre Sírio (ELS), que
reivindicou a autoria do atentado contra a cúpula de segurança de Assad.
O ELS tem sede na Turquia e, equipados com
melhor armamento, apesar de inferior ao do governo, tem lançado uma
série de ataques contra as forças de segurança do regime.
O líder do ELS, Riyad al-Asaad, afirma que suas
tropas somam 15 mil homens, ainda que estimativas oficiais deem conta de
que o número não passa de 7 mil.
Quem apoia Assad?
Assad é apoiado majoritariamente pela minoria alauíta, da qual faz parte, e por cristãos, que temem perseguições religiosas.
A maioria dos opositores, entretanto, é de origem sunita, que já foi massacrada pelo regime no início dos anos 1980.
Qual a posição da comunidade internacional?

Governo americano é um dos principais defensores de uma intervenção militar na Síria
Especialistas apontam a Síria como um dos países
mais importantes do Oriente Médio, uma vez que temem um
"efeito-ricochete" em nações vizinhas devido à proximidade do governo de
Assad com grupos como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos
territórios autônomos da Palestina.
O país também é um dos principais aliados do
Irã, arqui-inimigo dos Estados Unidos, de Israel e inclusive da Arábia
Saudita, o que pode levar qualquer conflito armado na região a uma crise
de grandes proporções internacionais.
A Liga Árabe inicialmente permaneceu em silêncio
diante do conflito, mas acabou impondo sanções econômicas à Síria em
uma tentativa de forçar Assad a renunciar ao poder.
Em janeiro de 2012, a entidade divulgou um
ambicioso plano de reforma política para a Síria, que propunha a
substituição do presidente sírio pelo seu vice-presidente, o início das
conversas com setores da oposição e, finalmente, a convocação de
eleições multipartidárias supervisionadas por observadores
internacionais.
A Liga pediu então apoio do Conselho de
Segurança da ONU. Mas a resolução elaborada pelas Nações Unidas, que
propunha, em última análise, uma intervenção militar, foi vetada pela
China e pela Rússia, que possui laços militares e econômicos estreitos
com a Síria.
Em 12 de março deste ano, após aproximadamente
um mês de intensos bombardeios na cidade de Homs que deixaram mais de
700 mortos, ao norte de Damasco, a ONU e a Liga Árabe enviaram Kofi
Annan, o ex-secretário-geral do organismo multilateral, ao país.
Annan propôs a Assad um plano de paz com seis
pontos, que reivindicava, entre outras coisas, um cessar-fogo entre
todas as partes e a libertação de presos. Assad, por sua vez, concordou
com o plano no dia 27 do mesmo mês, apesar do ceticismo mundial. A
violência, no entanto, não cessou.
Recentemente, o Brasil, que havia se posicionado
contra a intervenção estrangeira, subiu o tom das críticas em
comunicados divulgados pelo Itamaraty, condenando o massacre de civis.
Qual o papel da Rússia no conflito?

Aliada da Síria, Rússia tem laços econômicos e militares estreitos com governo de Assad
A Rússia tem ligações econômicas e militares
estreitas com a Síria. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisas
para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), sediado na Suécia, o
país liderado por Vladimir Putin é o principal fornecedor de armas ao
governo de Assad, seguido pelo Irã.
Mas, na análise do comentarista político
Konstantin von Eggert, da rádio russa Kommersant, ao apoiar Damasco, o
Kremlin diz ao mundo que nem a ONU ou qualquer outro grupo de países tem
o direito de dizer quem pode ou não governar um Estado soberano.
Segundo o comentarista, desde a queda de
Slobodan Milosevic, até então presidente da extinta Iugoslávia, em 2000,
e especialmente depois da "Revolução Laranja" de 2004 na Ucrânia, a
liderança russa é obcecada pela idéia de que os Estados Unidos e a União
Europeia arquitetam a queda dos governos que, por algum motivo, julgam
inconvenientes.
Eggert avalia que Putin e sua equipe temem que algo parecido possa também acontecer na Rússia.
Além disso, diz o comentarista, a crise líbia no
ano passado teria reforçado a desconfiança russa sobre a retórica
humanitária ocidental, que não passaria, segundo Moscou, de "camuflagem
para a troca de regimes".
Muitos dirigentes russos, incluindo Putin,
consideram a abstenção do então presidente Medvedev na votação do
Conselho de Segurança da ONU que autorizou uma zona de exclusão aérea
sobre a Líbia um desastre.
A Al-Qaeda está envolvida no conflito?

Principal político sírio a ter desertado, Nawaf al-Fares aponta conexões entre al-Qaeda e Assad
Em entrevista à BBC, Nawaf al-Fares,
ex-embaixador da Síria no Iraque e até agora o político mais importante
ligado ao governo de Assad a ter desertado, disse que o regime colaborou
com militantes sunitas da rede Al-Qaeda em uma série de atentados
atribuídos às forças opositores ao governo sírio.
Fares também afirmou que a Síria possui um
grande estoque de armas químicas de destruição em massa e que Assad não
descartaria usá-las caso sua queda fosse prenunciada.
A alegação, no entanto, causa surpresa, uma vez
que Assad é da minoria alauíta (um ramo do islamismo xiita). Mesmo
assim, Fares afirmou que "há suficiente evidência na história de que
muitos inimigos se unem quando há um interesse comum".
"A Al-Qaeda está buscando espaço para atuação e
novas fontes de apoio, ao passo que o regime quer encontrar formas de
aterrorizar a população síria", disse o ex-embaixador de Assad à BBC..
Fonte: BBC Brasil