quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Comissão da ONU acusa autoridades sírias de crime contra a humanidade

Atualizado em  23 de fevereiro, 2012 - 16:04 (Brasília) 18:04 GMT

Bombardeiro em Homs. AFP
Países ocidentais e árabes pressionam a Síria para que abra um corredor humanitário para Homs
Um relatório da Comissão Independente de Inquérito sobre a Síria apresentando nesta quinta-feira à ONU aponta a existência de violações "generalizadas e sistemáticas" aos direitos humanos no país árabe e afirma ter evidências de que militares e "autoridades dos mais altos níveis do governo" sírio têm responsabilidade por crimes contra a humanidade.
O documento da comissão chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro ainda afirma que uma lista confidencial com nomes de suspeitos de terem cometido tais violações foi entregue à Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay.
Em entrevista à BBC, Pinheiro disse que a "situação se deteriorou muito" na Síria nas últimas semanas, com o cerco à cidade de Homs, principal reduto oposicionista.
"Temos mais evidências do que vem ocorrendo, dessa escalada de conflito armado. Conseguimos encontrar testemunhas e entrevistamos vários desertores (do Exército sírio). Temos agora um importante conjunto de evidências (de violações de direitos humanos)", afirmou.
O relatório mostra que os abusos ocorrem dos dois lados do conflito. A comissão pondera, no entanto, que a violência de grupos oposicionistas não se compara à repressão do regime de Bashar al-Assad.
A comissão de inquérito, formada em setembro do ano passado, não teve autorização do regime sírio de atuar no país.
Na semana passada, a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, disse que a organização deixou de contar o número de vítimas no conflito, dada a escalada de violência.
A Comissão de Direitos Humanos havia divulgado no último mês de dezembro que mais de 5 mil oposicionistas haviam sido mortos. Ativistas falam agora em mais de 7 mil. O governo, por sua vez, fala em 2 mil soldados mortos.

Cerco a Homs

Principal reduto da oposição, Homs enfrenta mais um dia de forte bombardeio das forças de Assad, um dia após a morte de dois jornalistas ocidentais.
Ativistas relatam ataques de artilharia e mísseis ao distrito de Baba Amr, que chegou a ser tomado pelos oposicionistas.
Tanque abandonado em Homs (Reuters)
Base da oposição, cidade de Homs é alvo de bombardeios constantes das forças sírias
Cresce a pressão para que o governo sírio abra um corredor humanitário para Homs, para o envio de comida aos civis isolados no cerco à cidade.
Nesta sexta-feira, representantes de países árabes, europeus e dos Estados Unidos irão se reunir na Tunísia para discutir a crise na Síria. É esperado um ultimato a Assad na reunião.
Segundo o Itamaraty, o Brasil foi convidado para o encontro e deverá ser representado pelo encarregado de negócios da embaixada brasileira na Tunísia.
A reunião, no entanto, acabou esvaziada pelo anúncio de que China e Rússia não participarão do debate. Os dois países, que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, também vetaram resoluções contra o regime de Assad nos últimos dias.

Jornalista quer deixar a Síria

A jornalista francesa Edith Bouvier, ferida em um ataque à cidade de Homs na quarta-feira, fez nesta quinta-feira um apelo ao regime, para deixar a Síria e ser levada ao Líbano.
No vídeo postado por ativistas da oposição, Edith diz que teve o fêmur quebrado e precisa urgentemente de uma cirurgia.
Marie Colvin (Getty)
Colvin tinha 30 anos de experiência como correspondente estrangeira
Edith se feriu no mesmo ataque que matou a veterana jornalista de guerra Marie Colvin, repórter do jornal britânico The Sunday Times e o premiado fotógrafo francês Remi Ochlik.
Em seu último artigo, publicado no domingo, Marie Colvin, disse que "a magnitude da tragédia humana na cidade (de Homs) é imensa. Os moradores vivem aterrorizados. Quase todas as famílias têm um morto ou um ferido entre seus integrantes".

Fonte BBC Brasil

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ataques contra diplomatas aumentam tensão entre Israel e Irã

Atualizado em  13 de fevereiro, 2012 - 15:23 (Brasília) 17:23 GMT

BBC
Israel responsabiliza Teerã por atentado cometido na Índia; embaixador iraniano nega
O governo de Israel responsabilizou o Irã por um atentado cometido nesta segunda-feira contra funcionários da diplomacia israelense na Índia, além de outro ataque frustrado na Geórgia, em um episódio que aumenta a tensão entre os dois países.
Uma explosão ocorrida em Délhi feriu um diplomata de Israel, além de outras três pessoas. Testemunhas disseram a uma TV local que um motociclista colocou o explosivo sobre o carro da embaixada quando ele estava parado no trânsito.
Já uma bomba foi encontrada sob o carro de um diplomata na capital da Geórgia, Tbilisi, e foi desativada.
O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou em uma reunião de parlamentares de seu partido, o Likud, que os atentados foram cometidos contra "civis inocentes", tendo a participação de Teerã.
"O Irã está por trás destes ataques, e (o país) é o maior exportador de terrorismo no mundo", afirmou o premiê.
Netanyahu disse ainda que o Irã estava por trás de planos recentes de atacar alvos israelenses na Tailândia e no Azerbaijão, que acabaram sendo desbaratados, e insinuou que o movimento militante islâmico Hezbollah também estava envolvido nos atentados.
No entanto, o embaixador do Irã na Índia, Mahdi Nabizadeh, negou que seu país esteja por trás do ataque realizado no país.
De acordo com a agência estatal iraniana Irna, o embaixador disse que o Irã condena atos terroristas, e classificou as acusações de Israel de "mentiras".
O Ministério de Relações Exteriores de Israel afirma que o país tem a capacidade de encontrar os responsáveis pelos atentados.

Programa nuclear

O correspondente da BBC em Jerusalém Rupert Wingfield-Hayes afirma que a segurança nas embaixadas de Israel foi intensificada nos últimos meses, depois de alertas de possíveis ataques.
Wingfield-Hayes diz que a medida foi tomada devido a acusações feitas pelo Irã de que Israel estaria atacando seus cientistas nucleares.
O programa nuclear iraniano é foco de preocupação entre Israel e países ocidentais, e fez com que o país fosse recentemente alvo de novas sanções dos Estados Unidos e da Europa.
Nesse sábado, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse que anunciará nos próximos dias "grandes" avanços nucleares do país.
Teerã afirmou por repetidas vezes que seu programa de enriquecimento de urânio tem fins pacíficos, apesar de temores de que ele leve o país a obter a bomba atômica.

Esquadrão antibombas

Depois da explosão em Délhi, a TV indiana exibiu imagens de um carro em chamas perto da embaixada. Um vídeo posterior mostra o carro queimado, como fogo já extinto.
A área em torno do veículo foi isolada, enquanto peritos e o esquadrão antibombas examinavam os destroços.
A embaixada possui diversos níveis de segurança e fica em uma área bem protegida da cidade, perto da residência oficial do primeiro-ministro indiano, Mahmohan Singh.
O porta-voz da embaixada israelense em Délhi, David Goldfarb, disse que o carro do diplomata estava próximo do prédio da representação quando a explosão ocorreu. Ele não deu detalhes sobre quem está por trás do atentado.
Na Geórgia, autoridades disseram que o artefato que acabou desativado foi conectado ao fundo do carro de um diplomata em Tbilisi.

Fonte: BBC Brasil.

Brasileiros terão que provar que terras no Paraguai são legais, diz ministro

Atualizado em  13 de fevereiro, 2012 - 09:39 (Brasília) 11:39 GMT

Foto:Jornal La Nación do Paraguai
Sem-terra invadiram terra do brasileiro que é considerado 'rei da soja' do Paraguai
Em meio a uma nova disputa por terras na região de fronteira com o Brasil, o ministro do Interior do Paraguai, Carlos Filizzola, disse que os fazendeiros brasileiros que tiverem títulos "ilegais" poderão perder suas propriedades no país.
"Aqueles que não tiverem como comprovar sua legalidade, devem estar preocupados. Os que têm títulos legais podem ficar tranquilos", disse em entrevista à BBC Brasil, falando de Assunção.
"Os que receberam terra de forma ilegal podem se preocupar. Sejam paraguaios, brasileiros ou de outra nacionalidade", completou.
O ministro afirmou que as terras deverão ser restituídas ao Estado, mas disse que caberá à Justiça a definição sobre a veracidade e a legalidade dos documentos, dizendo que Poder Judiciário do país "é muito lento, mas deve ser respeitado".
Suas declarações foram feitas no momento em que grupos de sem-terras ocupam propriedades nos municípios na região do Alto Paraná, no leste do país.
Advogados dos fazendeiros dizem que as invasões começaram em abril de 2011, mas que teriam se intensificado este ano, principalmente no município de Ñacunday, onde estão as terras do brasileiro naturalizado paraguaio Tranquilo Favero, chamado pela imprensa local de "rei da soja" do Paraguai.
"Setores do governo não atendem às determinações judiciais de que a polícia deve desocupar os terrenos", disse à BBC Brasil o advogado Guillermo Duarte, defensor de Favero.
"Ele tem terras produtivas há mais de quarenta anos e deve ser respeitado pelos investimentos que fez e faz no país."
Flilizzola, no entanto, afirmou que o governo tem atendido a todas as determinações da Justiça para as desocupações das terras. Em um dos casos, em um pedaço de terra próximo a uma empresa, a desocupação não foi realizada porque a Justiça não teria emitido parecer específico.
"Até o momento não recebemos nada da Justiça", afirmou o ministro. Estas terras também seriam de propriedade de Favero, de acordo com seu advogado.
Nos últimos dias, emissoras locais de televisão e fotógrafos registraram o que seriam grupos de sem-terras com foices e paus defendendo sua permanência nas áreas ocupadas.
Um dos líderes do protesto, Victoriano López, disse à BBC Brasil que "mais de 10 mil famílias estariam acampadas em uma extensão de 7 quilômetros", onde estão as instalações de uma empresa de eletricidade.
"Essa aqui é terra pública. Os brasileiros estão ocupando terras fiscais que deveriam ser do povo paraguaio. Nós somos pobres e eles estão ricos."
López disse que os sem terra "não tem apoio do governo" e que a polícia "que deveria proteger o povo paraguaio, está do lado dos latifúndios". Ele afirmou que não há planos de liberação das terras ocupadas em Ñacunday.

Problema estrutural

Segundo o ministro do Interior paraguaio, a distribuição de terra é hoje um dos grandes problemas do país, que tem 6,4 milhões habitantes, com cerca de 35% de pobres. Oitenta por cento das terras estão "nas mãos de apenas 2%" da população, afirma Filizzola.
"No Paraguai, grande parte das terras está nas mãos de poucos. Os grandes latifúndios surgiram principalmente durante a ditadura de (Alfredo) Stroessner, quando as terras foram entregues ou vendidas, mas sempre em meio a muita corrupção. E aquele sistema foi mantido pelos governos que sucederam o de Stroessner", afirmou.
Segundo ele, muitos brasileiros e paraguaios passaram a ser donos de terras naquele período.
Na sua opinião, os conflitos de terras são recorrentes no país porque o Paraguai é "fundamentalmente agrícola" e o pequeno produtor não tem acesso à terra, como deveria.
"Existe um problema antigo de concentração de terras no país e por isso necessitamos de uma reforma agrária integral. Com o governo (do presidente Fernando) Lugo adotamos várias medidas, tentamos melhorar essa situação, mas esse é um problema estrutural, que vem da época de Stroessner e ainda há muito a ser feito", insistiu.

Radiografia

Foto:Jornal La Nación do Paraguai
Ministro disse que propriedades privadas serão respeitadas desde que sejam legais
Filizzola disse que o governo pretende "deixar transparente" a radiografia das terras no território paraguaio.
O Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert), equivalente ao Incra no Brasil, está medindo as terras do país. Depois disso, o governo pretende realizar um censo, com ajuda do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Com posse dos dados técnicos, Filizzola afirma que "o Poder Judiciário terá a palavra final" sobre as disputas entre fazendeiros e sem-terra.
Ele garante que a "propriedade privada" será respeitada "desde que os documentos não sejam falsos".
No mês passado, fazendeiros reclamaram que os militares convocados para medir as terras na região de fronteira teriam chegado acompanhados por grupos de sem-terras.

Soja

O Paraguai é o quarto maior produtor mundial de soja, mas o ministro observou que esta não é a atividade que mais gera empregos diretos para os paraguaios.
"A soja é muito importante, mas é principalmente para exportação e é exportada como matéria-prima, gerando poucos empregos para os paraguaios. Devemos ter uma agroindústria e aí sim serão gerados empregos no país", disse.
Ele fez a mesma ressalva em relação à produção de carne – outro setor com forte presença de produtores brasileiros no país.
Nos bastidores do governo, autoridades costumam lembrar que o cultivo da soja "levou o camponês para a cidade, onde ele não encontra emprego, o que também contribui para o aumento da pobreza".
O ministro reconheceu que a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, em abril de 2013, é "difícil" que o governo Lugo, que não tem maioria no Congresso Nacional, aprove novas leis, como uma "ampla reforma agrária".
Fontes da embaixada do Brasil em Assunção disseram à BBC Brasil, na semana passada, que estavam "otimistas" depois que o governo afirmou que respeitará a propriedade privada.
Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Manifestações no Egito deixam 2 mortos e centenas de feridos

Homem segura jornal com manchete da tragédia em Porto Said (Foto: AFP)
Mortes em estádio provocaram manifestações e críticas à polícia egípcia
Duas pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas nesta quinta-feira no Egito durante confrontos entre a polícia e manifestantes que protestavam contra a violência nos estádios.
Os dois mortos nos protestos teriam sido alvejados a tiros pela polícia, que tentava conter a multidão enfurecida na cidade de Suez, segundo fontes médicas.
Na praça Tahrir, no Cairo, autoridades usaram gás lacrimogêneo para tentar conter a multidão, revoltada com um confronto entre torcedores após um jogo de futebol ocorrido na véspera em Porto Said. O conflito deixou 74 mortos e centenas de feridos.
Milhares de manifestantes permaneceram nas ruas pela madrugada após um dia de confrontos com a polícia. Uma multidão tentou invadir o Ministério do Interior, mas foi contida pela polícia.
O manifestantes acusam a polícia de não agir para garantir a segurança depois da partida, em que torcedores do Al-Masry invadiram o gramado depois que o time local venceu por 3 a 1 o Al-Ahly, do Cairo.
Muitos morreram prensados contra as grades do estádio ou caíram das arquibancadas, enquanto outros foram alvejados com pedras, cadeiras e até facas.
Confrontos entre torcidas em Porto Said, na quarta-feira
Testemunha diz que 'dava para ver ódio nos olhos' de torcedores em confronto
O episódio provocou uma nova onda de tensão no Egito e abalou a confiança em relação ao conselho militar governante, em um momento em que o país se prepara para eleições presidenciais cujo objetivo é transferir o poder para um governo civil.
Em resposta, o governo - que declarou três dias de luto oficial - fez reuniões emergenciais de gabinete na quinta-feira e anunciou a demissão de vários altos funcionários.

Confronto político

A tragédia ganhou contornos políticos, já que além dos protestos, a Irmandade Muçulmana, maior partido do atual Parlamento, acusou simpatizantes do ex-presidente Hosni Mubarak de provocarem os distúrbios para levar o "caos" ao Egito.
O partido acusa os generais de fomentar o confronto para evitar uma transferência pacífica do poder. Há ainda especulações dizendo que partidários do ex-líder teriam incentivado torcedores do Al-Masry a entrarem em choque com os rivais do Al-Ahly, por terem participado dos grandes protestos pró-democracia.
No entanto, o correspondente da BBC no Oriente Médio Wyre Davies afirma que essas teorias, no momento, não passam de meras especulações.
Mulheres choram em funeral de vítimas de confrontos em estádio
Vítimas (veladas por mulheres acima) morreram em briga entre torcedores do Al-Masry e do Al-Ahly
“Muitos dos torcedores do Al-Ahly participaram das batalhas na praça Tahrir, lutando por mais emprego e oportunidades. Eles têm ódios dos privilégios das autoridades”, afirma Davies.
“Mas o que sabemos com certeza é que a polícia mal treinada e mal paga falhou na hora de separar torcedores rivais com um histórico de violência. Após a queda de Mubarak, é de se esperar que haja união, na expectativa de uma nova era. Mas a realidade é que o Egito continua mergulhado no caos.”

'Qualquer lugar do mundo'

Hussein Tantawi, líder do conselho militar egípcio, esteve em uma base aérea do Cairo para se encontrar com torcedores e jogadores do Al-Ahly que haviam sido removidos de Port Said.
"(O episódio) não vai derrubar o Egito", disse o líder militar, segundo a agência Associated Press. "Esses incidentes podem ocorrer em qualquer lugar do mundo. Não deixaremos os culpados escaparem."
Nesta quinta-feira, autoridades de Port Said e da associação de futebol do Egito foram demitidas por conta do episódio. O governador local renunciou, enquanto o diretor de segurança da cidade e o chefe de investigações policiais foram suspensos e estão sob custódia policial.

Fonte: BBC - Brasil